30.5.17

A vida é uma imersão de novas aventuras

Era inverno naquele ano, o dia havia amanhecido tão nublado que a vontade de sair de casa era como plagiar um quadro de Picasso.  Do outro lado da sala, enquanto a neve caia no sul do Brasil, ela tomava mais um pouco do café quente com gosto de nada, já que era descafeinado.  A visão privilegiada da sacada do prédio para o outro lado da rua transformava a vontade de chorar em vontade de chorar e sumir.  A sensibilidade por sobreviver a vida e não vive-la causava desespero, mas não era apenas sobre isso, estava mais em saber por onde ir.

Ela usava meias e um pijama de panda, meio desconcertante para uma mulher daquela idade, mas o tamanho era de uma adolescente do ensino médio, não que ela fosse tão mais velha que elas. 
Mas no fundo, imaginava já ter vivido tudo o que podia. Será que não avisaram  que nem chegou na metade dos 50 anos?


O celular tocou no silêncio da casa, cogitou se devia atender ou seguir viagem refletindo sobre onde estava o erro da vida ou como matar a charada do destino, convencida sobre quem era do outro lado, correu para dentro da sala, pegou o telefone, e o nome da amiga que conhecera a muitos anos deslizou de um lado a outro.

  - oi, amiga. 
  - oi, não te vi esses dias, está tudo bem? 
  Ela parou um pouco, respirou profundamente e sorrio para si  enquanto engolia o nó da corda que se formou na garganta. 
  - Eu não sei, estou tão confusa...
  - confusa? 
  - confusa com a vida, medo de tomar decisões, tranquei o cursinho, nem sei o que quero fazer. Vou arriscar.  Também não sei o que estou sentido, estou com a faca e o pão na mão, mas não sei como cortar. 
  Parece que minha vida está desmoronando, estou andando sentido a lugar nenhum, meus dias parecem ter saído do filme da Samara, vivo entre o poço e o calor da ilusão.


O silêncio do outro lado da linha era tudo o que ela precisava para continuar falando.

- Já errei tantas vezes,  estou cansada de arriscar e desistir. Não achei que morar sozinha fosse só morar, não achei que fosse me transformar nessa mulher fraca e cheia de dúvidas.  Sinto ansiedade por tudo o que me envolve, o fato de respirar me faz querer sumir. Eu não sei se estou respirando forte, fraco, e as vezes, parece que estou apenas sugando o ar do mundo.
E ainda tem o menino que conheci aquele dia, estou dividida entre o certo e o que podia dar certo. Estou dividida no que quero e o que não posso querer.


Ela jogou o corpo para trás e balançou a cabeça freneticamente. Seu choro tornou-se em soluço.
- eu realmente não sei em que parte do pesadelo estou, está tudo nublado. Tudo cinza....

O silêncio paira, do lado de cá e do lado de lá. 
  - amiga? - ela pergunta.

Mas a amiga não estava mais lá, ela não podia esconder a decepção, afinal, por que diacho ligou, então, se não estava disposta a ouvir até os ouvidos sangrarem?  Ela desligou o telefone e voltou a fazer o que sabia fazer, mais um pouco do café com gosto de solidão.


Do outro lado da linha, a amiga procurava pelas chaves do carro. Encontrou-as dentro do livro sobre políticas públicas,  vestiu a primeira blusa que encontrou, saiu do apartamento e desceu as escadas de emergência, 11 andares até a garagem.

Não que não pudesse fazer o que quer que fosse de casa, um Skype podia resolver, não que não pudesse falar pelo telefone e passar a falsa impressão de proximidade, não que não pudesse mandar uma mensagem de texto, mas não era disso que ela precisava. Era de mais, de um ombro, de alguém que pudesse confiar e de alguém que falasse que estava tudo bem.

Porque estava mesmo.  Estava tudo bem começar uma faculdade e trancar, e começar outra. Isso é se reinventar, se descobrir.  Estava tudo bem não ter coragem de arriscar, porque todo mundo sente a mesma insegurança quando fica de frente ao incerto. Estava tudo bem não entender os sentimentos porque uma hora ou outro você aprende a lidar.

Ela queria dizer, olho a olho, que estava tudo bem sentir medo da vida. Porque a vida é isso mesmo, um arranha céu infinito, uma montanha que o topo sempre terá outro topo e quando alcançar um e outro, as surpresas ainda existirão.

A amiga, que pouco sabe da vida, mas que parece que já viveu tanto, só queria que a amiga que sofria entendesse que estava tudo bem ser quem ela é, cheia de defeitos, confusões, insegurança e receio do depois. Ela queria avisar, ali, naquela apartamento de 40metros, que não importava quem ela fosse, ou quem ela quisesse ser. Não importava o tanto que demorasse, mas que por favor, não esquecesse que o melhor da vida é a surpresa, é o seu explorar e é o seu conseguir. É entender que depois de um tempo outras dúvidas virão, outras inseguranças e outros medos, o que você tem de fazer é aproveitar a passagem e tirar os melhores frutos de tudo isso. 

Aprender, reaprender, se reinventar e se descobrir.  A vida é uma imersão de novas aventuras.

INSTAGRAM: @MONIELEHACKMAN
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3 comentários:

  1. adorei o texto, nunca devemos deixar que a vida pare de nos surpreender com tantas boas possibilidades

    www.tofucolorido.com.br
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  2. Olá! Gostei muito da sua escrita, e essas situações de medo, preocupações, cansaço... acho que todos podemos nos identificar. "A vida é uma imersão de novas aventuras" é uma frase que vou levar pra mim hahaha adorei, seguindo! <3

    Beijos,
    ahamare.blogspot.com

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  3. Adorei! Não só porque sua escrita é maravilhosa,mas porque é um daqueles textos que faz a gente se identificar, e achar força para continuar mesmo com medo, preocupações e tudo mais, porque a graça da vida é a surpresa, se arriscar e poder se reinventar. Bjss!
    https://bydesencantada.blogspot.com.br/

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@monielehackman